Adentrei o quarto, fechei bem as cortinas, tinha que me certificar de que o sol não me acertaria. Afastei a cama da janela, só por prevenção. Estava cansado, coloquei a arma na cabeceira, admirei-a por alguns segundos. Era uma M1911, lembro bem dessa arma por causa dos jogos, a velha e boa .45 ACP.........
Me joguei na cama e desmaiei de cansaço. As horas passavam enquanto eu dormia, já havia amanhecido.Devia ser por volta do meio-dia, a pior hora possível para mim, quando um casal de policiais à paisana chegou à recepção do hotel. O homem, de estatura média, forte e cabelos curtos, aparentava ter 30 e poucos anos; a mulher, tinha aproximadamente a altura do homem, um corpo bonito o suficiente para chamar atenção por onde passar, os cabelos castanhos passando um pouco dos ombros.
Eles perguntavam ao balconista sobre um garoto de 19 ou 20 anos, com cabelos pretos longos, que poderia ter aparecido aqui na madrugada passada. Sem hesitar ele indicou o meu quarto. Eu ainda em sono profundo não ouvi os policias se aproximarem do meu quarto. Acordei de repente com a porta sendo arrombada.
- Parado, polícia militar, nem se mexe vagabundo! – eles gritavam.
Eu sem saber o que fazer, não tinha para onde fugir com o sol do meio-dia lá fora a minha espera. Olhei para a minha arma, a mulher voou par cima de mim exibindo seus dentes.
- Nem pense nisso – ela era uma vampira também.
Ela torceu meu braço e pôs na linha de tiro de seu parceiro, ele atirou em mim na hora, mas não era uma bala. Um dardo com algo que me deixou completamente dopado. Me colocaram num saco preto enorme, era um tecido grosso e pesado, fecharam-no bem e me arrastaram pelo hotel até me jogarem dentro do seu carro.
O homem estava dirigindo, a mulher sentou-se no banco de trás, onde haviam me colocado. Ela me tirou de dentro da sacola.
- Tudo bem ai garoto? Foi mal pelo show lá no seu quarto, mas tinha que ser convincente.
- Como assim? O que que está acontecendo dessa vez? – perguntei ainda meio dopado, até que me virei e olhei pelo vidro o sol – Arrgh!! – gritei colocando o braço na frente do rosto para me proteger.
- Que coisa mais desnecessária, - ela debochou de mim. Vi que o sol não estava me fazendo nada, tal como era nos tempos de humano. – Esses vidros escuros, 100% de proteção contra luz ultravioleta.
- Não se preocupe Denis, agora você está em boas mãos. - o homem disse me olhando pelo retrovisor.
- Como vocês sabem meu nome? Vocês não são policiais de verdade, são?
- Somos policiais sim, - respondeu a mulher - mas não é só isso. Sabemos muito sobre você. Você é Denis dos Santos, 20 anos, dado como morto à duas noites atrás. Porém despertou como vampiro e acabou se envolvendo com quem não devia. Primeiro com aquela gangue amadora de vampiros, depois numa batalha entre uma alcatéia Lycan perigosa e um bando de caçadores.
- Uma alcatéia o que? Vocês querem me explicar as coisas direito.
- Lycan, abreviação de lycanthropo – respondeu o homem – do grego lýkos, lobo; e ánthropos, humano. Calma logo tudo fará sentido.
- Você está confuso, não sabe nada sobre esse mundo que acabou de entrar, e pra piorar ainda esteve com quem apenas acha que sabe. – a moça me explicava – Você não vê por ai noticias de vampiros e lobisomens nos jornais, mas já viu que eles estão por ai. Mas a coisa é muito mais organizada do que você pensa. Existe toda uma sub-sociedade de vampiros e lobisomens convivendo com a sociedade humana. Vivemos escondidos, disfarçados em meio aos humanos, pois se eles souberem de nós o caos será generalizado. Afinal, mesmo sem que notem muito nossa presença, já existem grupos de extermínio como o que atacou a alcatéia que o fez refém.
- Tá me dizendo que as pessoas andam por ai com vampiros e lobisomens e não sabem nada disso?
- É, você mesmo deve ter conhecido mais de um durante sua vida humana mas nunca se daria conta, se não tivesse acontecido o que aconteceu. Já estamos chegando a nossa casa, lá te explicamos tudo direito.
- A casa de vocês.
- Provavelmente será a sua também.
O carro entrava na garagem de um prédio quadrado e baixo, porém relativamente grande, parecia um instituto de pesquisa. Quase não tinha janelas. A garagem era no sub-solo, não entrava nenhuma luz exterior. Sol zero. Descemos do carro.
- Essa é a Casa dos Censores, nós. Somos os responsáveis por manter em segredo toda atividade lycan ou hematófaga nessa região.
- Hematófago? Vampiro?
- Sim, os que se alimentam de sangue.
- Mas afinal quem são vocês dois?
- Eu sou Julia, e esse é meu marido Bruno. Nós realmente somos policiais. Há 13 anos eu fui transformada por um hematófago descontrolado que perseguíamos achando ser apenas um psicopata qualquer, os Censores da época intervieram antes que ele nos matasse....
- Mas não antes que ele a transformasse. – terminou Bruno – Desde então temos trabalhado com eles.
- Vamos o resto da casa está te esperando no segundo andar. – Julia disse entrando no elevador.
As portas se abriram, não havia muita gente. Um homem gordinho negro de estatura baixa usando óculos, vestido como um cientista; uma garota de cabelos castanhos, aproximada mente 15 anos; e... o Tiozão!
- Surpreso em me ver D? – ele disse ao ver minha cara de espanto.
- Tiozão, você está vivo? Eu achei que você fosse da gangue do Ray...
- Primeiro, o nome é Lincoln, ok? Eu estava disfarçado, estávamos querendo pegar aqueles caras, eram criminosos.
- Ok, o Lincoln você já conhece, agora o resto da casa. Esse é o Fernandes, ele é m humano, é o responsável pelos estudos científicos sobre lycans e hematófagos no Brasil, e a garota é Érica, filha minha e de Bruno.
- Olá – ela diz sorrindo.
- E ai garoto. – Fernandes também cumprimenta.
- É... oi. – respondi meio sem jeito – Mas então são apenas dois vampiros? Achei que houvessem mais.
- Bom na verdade esperamos que sejam três, contando com você. Mas costumávamos ser em maior numero aqui, mesmo não sendo uma casa tradicional. – responde Julia. – Mas os outros vampiros dessa casa acabaram morrendo.
- Tradicionalmente as casas são de vampiros apenas, tal como as alcatéias são somente de lycans. Mas existem exceções, principalmente para casa que fazem a interação com humanos. Nós somos os que mantêm na surdina matanças com as das noites anteriores e funcionamos como uma espécie de polícia para vampiros e lobisomens. - Tio.. digo, Lincoln esclareceu.
- Eu a Julia passamos a noite inteira junto com alguns outros policias e pessoas da imprensa, todos com ligações a nossa casa, limpando os galpões onde você esteve.
- Ahh foi mal.....
- Não é sua culpa garoto, você tem sorte de estar vivo.
- Em resumo, - Lincon cortou-o – você é o que chamam de órfão da noite. Um vampiro, ou lycan, que está jogado sozinho no mundo, e cá entre nós, eles não tem uma expectativa de vida muito longa. Nós precisamos da sua ajuda e você precisa da nossa.
- Bom, acho que não tenho nem no que pensar....
Julia me guiava por um corredor com várias portas. As paredes eram em cor de cimento, não vi nenhuma janela, as portas eram verdes, com detalhes em alumínio, pareciam de hospitais.
- Esse será o seu quarto. – ela disse apertando um botão, uma porta abriu lateralmente, bem “do futuro” – só tem o básico aqui, mas com o tempo você vai deixando-o do jeito que quiser.
O quarto era grande também tinha as paredes em cimento e nenhuma janela, havia uma cama, um guarda roupas e só, o espaço vazio era enorme; uma porta levava a um banheiro.
- Tome um banho, se troque e depois vá ao laboratório. Temos que começar sua re-inserção social; depois falamos de trabalho. Há placas com mapa de todo o complexo espalhadas por todo o lugar, você não vai se perder.
Re-inserção social, a expressão me consumiu na hora, nem tive tempo para pensar o quanto estava sentindo falta da minha família, dos amigos, da garota que era afim....
- A sua filha, Érica, vocês a tiveram antes de você ser transformada Julia? Por que.. ela não é uma vampira, né?
- É ela não é vampira, nem humana, nós a tivemos depois da minha transformação. No laboratório você vai entender.
Ela fechou a porta me deixando lá sozinho. Segui suas ordens.
Como Julia disse não tive dificuldade para achar o lab, haviam placas de mapas por todo o lugar. Todo lugar que eu pudesse querer ir parecia ser no 2º andar do prédio, os dormitórios, o laboratório, refeitório e uma sala comunitária, onde a casa se reúne.
No laboratório Fernandes estava me esperando.
- Ok Denis vamos começar..
- Só D por favor – interrompi.
- Tá D, primeiro, vamos deixar claro que hematófagos e lycantropos não são criaturas vindas do inferno ou coisa assim; vocês são o próximo passo na evolução humana, ~são uma mutação genética do homo sapiens comum. Você pode nascer assim ou pode ser transformado, pois o sangue das duas espécies contém um gene diferente, que age como um vírus se entrar no sistema imunológico de um humano. Segundo: como você já deve ter presenciado a sede é uma grande inimiga de qualquer hematófago. – concordei com a cabeça – a sede vem de uma das principais deficiências da sua espécie. O sangue de vocês não tem hemácias nem granulócitos eosinófilos, se você se cortar quando estiver com sede verá que seu sangue estará extremamente esbranquiçado. Como você deve saber do colegial – não na verdade eu não sei, mas achei melhor não interrompe-lo – as hemácias levam o oxigênio pelo seu corpo, e os eosinófilos combatem infecções causadas por parasitas. Logo são essências para sua sobrevivência, se não você desmaiará e morrera infectado por algum vírus ou bactéria que não machucaria nem uma criança. Também, se sua presa for anêmica, logo você voltará a sentir sede.
- Então quando eu estiver caçando tenho que tomar cuidado pra não sugar gente com anemia?
Fernandes riu – Você não caçará pra se alimentar, existem outras casas que trabalham com bancos de sangue particulares que fornecem para nós, bem como casas que trabalham com produção de sangue artificial.... Continuando, seu outro problema é o Sol, mais precisamente a luz ultravioleta. Você deve se perguntar como a Julia andava pela rua em pleno dia quando eles o prenderam, - na verdade eu nem tinha parado pra pensar nisso – é graças a isso aqui. – Ele me mostra o que parecia ser uma embalagem de protetor solar – Protetor solar. Digamos que é fator 750, ele bloqueia completamente a radiação ultravioleta do sol. Mas para lanternas ultravioletas desenvolvidas para matar vampiros ele não é tão eficiente, você agüentaria alguns segundos mas vai acabar queimando. Além disso ele sai com água, até mesmo com suor, então esqueça os mergulhos matinais.
Ele jogou o frasco para mim.
- Agora quanto a lycans. Trabalhando aqui você terá muitos problemas com eles, pois as alcatéias lycans geralmente não são tão civilizadas quanto as casas hematófagas. Um lycan é superior a você em força e resistência física – (isso eu senti na pele) – também não tem problemas com a luz do dia. Ao contrário do que diz o folclore popular a lua cheia não tem nada a ver com a transformação deles fisicamente, mas seus instintos de uivar podem fazer com que lycans novatos se transformem na sua primeira lua cheia. Quanto as fraquezas deles, o potencial de regeneração deles não é tão alto quanto o seu. E eles são extremamente alérgicos a prata.
- Por isso o Rambão me soltou quanto me agarrou pelo pescoço. – deixei escapar.
- Rambo? Hahaha, você fala do lycan que estava naquela alcatéia? Gostei do apelido, aquele era Humberto Soares, ex-fuzileiro naval da marinha, expulso por comportamento excessivamente violento, depois de transformado em lycan encontrou sua vocação. Bruno disse que a perícia mostra que você enfrentou-o no mano a mano... Você tem colhões D.
Fiquei meio sem jeito perante ao “elogio”.
- A arma que você usou para mata-lo - ele me mostrou a minha pistola, tirou o pente e me mostrou as balas, as pontas eram prateadas – essas são balas de prata de ultima geração, além da própria bala ser de prata, elas contém nitrato de prata no seu interior, então acertem onde acertar, causam uma infecção terrível no lycan que é fatal se ele não receber cuidados imediatos. Mas não pense que não tem a versão para nós. – ele disse pegando uma bala com a ponta de vidro, aprecia ser uma pequena lâmpada na ponta – Isso é munição ultravioleta, quando acerta faz um pequeno flash UV – ele bateu a ponta da bala contra a mesa, ela piscou, mas não senti nada – o flash é fraco, alcança apenas um raio de
- Que agradável.... – ironizei – Fernandes... Julia me falou algo estranho sobre a filha dela, que ela a teve depois de transformada e que ela não é humana nem vampira.
- Ela é o que a cultura popular chama de Dhampira, filha de um humano com uma vampira, ou vice versa claro. Dhamphiros tem mesclados genes humanos e hematófagos, e cada um é diferente dos outros. No caso da Érica, ela é uma daywalker, ou seja a luz UV não a machuca e ela tem a agilidade hematófaga, mas ela tem carência de hemácias, mas não tem presas. Então ela sente a sede, mas não poderia caçar normalmente, teria que beber o sangue de alguém através de um ferimento comum o que a história já comprovou que não é eficiente. Já que estamos falando de reprodução, vale comentar vampiros podem ter filhos com vampiros, os puros-sangues, já nascem vampiros; e com humanos. Os lycnas porém devem ter suas crias com humanos ou com lobos, um cruzamento lycan-lycan resulta em crias problemáticas e deficientes e deformadas. Parecidas com um lobo bizarro, pode acontecer de resultar num lobisomem, mas ainda assim ele será diferente dos outros.
- E de lycans e vampiros?
- Nunca se teve noticia, os casais de lycan com hematófago são caçados por extremistas das duas espécies, bem como por caçadores humanos.
Bruno e Julia adentraram a sala.
- Ok Fernandes de um tempo na aula de biologia. – ele já chegou dizendo – Vamos re-integrar o garoto.
- Ok Denis – Julia ia dizendo
- D! Por favor. – interrompi de novo
- Denis. – ela salientou – Vamos mandar você de volta para a casa dos seus amigos, você dirá a eles que esteve resolvendo umas coisas com sua família e que terá de mudar de lá. Para sua família dirá que esteve em uma viagem com os amigos por isso não deu noticias, sua família estará preocupada pois o IML já havia ligado dizendo que você havia morrido, nos fizemos outra ligação afirmando que foi um erro e que era outro Denis dos Santos que havia morrido. Você retomará sua rotina normal durante o dia e irá desaparecendo aos poucos, mas ainda poderá manter contato com quem você quiser pelo tempo que quiser. Durante a noite você vai trabalhar conosco resolvendo os casos que não devem cair para a polícia.
- Parece bom pra mim.
- Então vamos começar com seu primeiro caso – Bruno já disse – a alcatéia que havia capturado você era um peixe pequeno, bem como a extinta gangue do Ray. Nós estamos atrás de uma alcatéia terrorista do leste europeu. Seu líder Velkan Iorgi, romeno, 33 anos, nascido humano, transformado em lycan por volta dos 14 anos, odeia os humanos e tem cometido diversos atos terroristas na Europa. Os conflitos recentes no leste europeu são culpa dele. Agora ele está aqui, casas do mundo inteiro vieram pra cá para caça-lo e nós acreditamos que tínhamos uma pista sobre seu paradeiro, pois era ele que fornecia armas para a alcatéia dos Cães da Noite. Não há nenhuma foto dele por tanto ninguém sabe como ele é.
- Vá descansar rapaz – Julia me recomenda – amanhã pela manhã você volta pra sua vida normal, mas de noite nós vamos caçar esse cara.

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